Tratamentos de superfície das cerâmicas odontológicas

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Cerâmicas ácidorresistentes

As cerâmicas usualmente indicadas para infraestrutura de próteses livres de metal são as cerâmicas cristalinas, devido às suas excelentes características mecânicas. Porém, estas cerâmicas não são condicionadas pelo ácido fluorídrico, tratamento usualmente aplicado às porcelanas de cobertura, justamente pela diminuição do componente vítreo da estrutura do material, o que torna crítica a adesão de cimentos resinosos a estas superfícies. Entre estas cerâmicas, pode-se citar as cerâmicas à base de zircônia (Lava/3M Espe; In Ceram YZ/Vita; Procera AllZircon/Nobel Biocare; Denzir/Decim AB; ICE Zirconia/Zirkonzahn; Cercon Zirconia/Dentsply; IPS e.ZirCAD/Ivoclar Vivadent) e de alumina (In-Ceram Alumina – Alumina infiltrada por vidro, e In-Ceram Zirconia – alumina reforçada por zircônia/Vita). Quando comparadas às porcelanas, as cerâmicas cristalinas apresentam uma resistência à fratura muito superior. Esta melhora nas propriedades mecânicas se deve à diminuição de fase vítrea na composição da cerâmica e ao aumento do conteúdo de cristais. A zircônia, por exemplo, apresenta ainda o mecanismo de “tenacificação” (transformation toughening), que consiste no aumento do volume dos cristais causado por estímulos, como impacto, e aplicação de carga, resultando em uma compressão superficial que impede a propagação de trincas na peça protética.

Em geral, o principal objetivo dos tratamentos de superfície é aumentar a rugosidade e adicionar sílica à superfície das cerâmicas cristalinas, criando assim um embricamento micromecânico no primeiro caso e uma união química no segundo, através de agentes de união contendo silano e/ou monômeros fosfatados (Porcelain Primer/Bisco; Espe-Sil/3M Espe; Monobond Plus/Ivoclar; Prosil/FGM). Dentre estes tratamentos, o mais difundido nos últimos anos é o jateamento da superfície de cimentação.

O jateamento consiste na aceleração de partículas contra a superfície interna da restauração, a fim de tornar esta superfície mais rugosa. Este tratamento foi inicialmente aplicado a restaurações metálicas e metalocerâmicas pelos laboratórios, e utiliza partículas de óxido de alumínio que variam em tamanho (50 – 110 μm). A rugosidade causada na superfície interna da restauração vai promover o embricamento micromecânico com o cimento. O jateamento também pode ser feito com partículas revestidas por óxido de silício (Sistemas Rocatec e Cojet, 3M), o que resulta na deposição de sílica na superfície da cerâmica e, através da aplicação de um agente de união, como descrito anteriormente, ocorre uma união química com o cimento resinoso, além do embricamento micromecânico. Esta segunda abordagem tem mostrado melhores resultados de adesão e estabilidade após o envelhecimento. Porém, existem relatos de que estes tratamentos podem levar a danos estruturais nas cerâmicas à base de zircônia, e pouco se sabe sobre seus efeitos em longo prazo.

Uma segunda alternativa seria a aplicação de uma camada de vidro sobre as cerâmicas cristalinas, como uma camada de glaze. A união entre o glaze e a cerâmica cristalina ocorre durante a sinterização do glaze; após, a superfície de cimentação pode ser tratada como uma superfície de porcelana: condicionamento com ácido fluorídrico e aplicação de agente de união. A sílica também pode ser infiltrada entre os cristais de zircônia através de uma técnica desenvolvida: a superfície da cerâmica é coberta por uma camada de vidro e o conjunto é aquecido acima do ponto de transição vítrea (750°C), onde o vidro fundido começa a difundir na região do limite dos grãos.

Após a remoção deste material, a superfície fica porosa e permite o embricamento micromecânico com adesivos e cimentos resinosos.

Outra forma de depositar sílica na superfície da zircônia seria a deposição de nanofilme à base de sílica pelo processamento de plasma. Com esta alteração, união zircônia-cimento resinoso se dará quimicamente, através do uso de um agente de união contendo silano, sem causar danos à superfície da cerâmica. Apesar de promissor, este é um método pouco acessível aos profissionais, e envolve o uso de equipamento específico. O ataque da superfície da zircônia com laser Er-YAG também chegou a ser considerado e avaliado in vitro, porém, os resultados de adesão, entre zircônia e cimento resinoso, oferecidos por esta técnica se mostraram limitados e insatisfatórios, do ponto de vista clínico.

Recentemente, agentes de união ditos universais (ScotchBond Universal/3M; Monobond Plus/Ivoclar Vivadent) têm sido indicados para aplicação sobre cerâmicas cristalinas e apresentaram bons resultados de união; a adesão foi maior após jateamento da superfície com óxido de alumínio. Aparentemente, a presença de monômeros fosfatados, seja nos agentes de união ou nos cimentos resinosos, tem sido associada a melhores resultados de resistência adesiva.

Conclusão

Restaurações totalmente cerâmicas têm sido progressivamente solicitadas, principalmente por motivos estéticos. No caso de restaurações confeccionadas em materiais que apresentam alto potencial adesivo (ácido-sensíveis) e suporte dental adequado, com quantidade de remanescente dental satisfatória (inlays, facetas), o prognóstico clínico é favorável quanto à longevidade do trabalho executado. As cerâmicas ácidorresistentes são indicadas para casos em que uma maior capacidade de resistir às cargas mastigatórias é solicitada, e existe pouco remanescente dental.

Tratamentos alternativos vêm sendo estudados para aumentar adesão às cerâmicas cristalinas, também com o intuito de aumentar suas indicações clínicas, principalmente em um momento onde novas cerâmicas à base de zircônia têm sido lançadas, oferecendo maiores características estéticas (Lava All-Zirconia/3M; Vita YZ HT Disc/Vita; Prettau/Zirkonzahn; Diazir/Ivoclar Vivadent – Diadem) e eliminando a necessidade de cobertura por porcelanas. A utilização de restaurações totais em zircônia (restaurações monolíticas ou full-contour) elimina os problemas relacionados ao lascamento das porcelanas de cobertura nas próteses livres de metal. O próximo passo é estabelecer uma adesão confiável entre a restauração e o pilar, seja este dentina, esmalte, reconstrução em resina composta ou pilar metálico ou cerâmico, a fim de assegurar a longevidade dos trabalhos protéticos executados pelo profissional, também com cerâmicas cristalinas.

ARTIGO:

Adesão às cerâmicas odontológicas

AUTOR(ES):

Lilian Costa Anami1
Marina Amaral2
Renata Marques de Melo3

1Mestra e doutoranda em Odontologia Restauradora/Prótese Dental – ICT/Unesp.
2Doutora e pós-doutoranda em Odontologia Restauradora/Prótese Dental – ICT/Unesp.
3Pós-doutora em Odontologia Restauradora/ Prótese Dental e Pesquisadora – ICT/Unesp.