Cimentos resinosos

O desempenho clínico das restaurações livres de metal está relacionado, tanto às propriedades dos materiais envolvidos, quando à sua adesão aos substratos – adesão do cimento à restauração e ao pilar. A cimentação de restaurações cerâmicas puras pode ser adesiva ou não adesiva, como para qualquer restauração indireta; são as características de retenção e estabilidade do preparo que devem guiar a escolha do profissional quanto à técnica a ser utilizada. Quando os preparos são poucos retentivos, indica-se realizar a cimentação com um cimento resinoso. A técnica de cimentação adesiva apresenta maior adesividade ao substrato e à restauração e maior resistência à fadiga do material, e promove menor microinfiltração. Para que a técnica adesiva seja bem-sucedida, todos os passos clínicos devem ser cuidadosamente seguidos de acordo com as indicações dos fabricantes.

Os cimentos resinosos podem ser classificados em relação ao condicionamento ácido. Os cimentos de condicionamento ácido total requerem o condicionamento ácido prévio, seguido pela aplicação do adesivo, e então o cimento; apesar de necessitarem de mais passos clínicos, apresentam os maiores valores de adesão ao substrato dentário e previsibilidade em longo prazo. Para os cimentos autocondicionantes, é utilizado um primer autocondicionante previamente à aplicação do cimento; a redução do passo clínico facilita o uso e traz menor sensibilidade técnica, ainda com bons resultados de adesão. Já os cimentos autoadesivos apresentam todos os componentes em um frasco só; o ácido fosfórico, incluído na resina, reage com partículas da matriz na presença de água criando a união com o substrato não tratado, resumindo a um sistema de passo clínico único.

Além disso, os cimentos resinosos podem ser fotoativados, quimicamente ativados ou duais (cura química e por fotoativação). Os cimentos fotoativados apresentam como vantagem o maior tempo de trabalho e a estabilidade de cor. Os quimicamente ativados podem ser indicados para áreas de difícil acesso para a fonte de luz. Já os cimentos duais são indicados pela facilidade de uso associado à resistência de união e qualidade estética.

Entre os clínicos paira a dúvida sobre a necessidade do uso do adesivo na superfície cerâmica após a silanização da mesma. Alguns fabricantes sugerem a aplicação de adesivo por sua alta fluidez, como forma de aumentar a molhabilidade de materiais resinosos à base de bis-GMA3. Em um estudo laboratorial não foi observada vantagem no uso do adesivo na superfície cerâmica e esta apresentou valores ainda menores de resistência de união ao cimento resinoso, quando foi simulado um envelhecimento. Clinicamente, isto poderia ser traduzido em degradação da união e/ou descoloração das margens da restauração.

O mecanismo de adesão às cerâmicas odontológicas é dependente também da composição química das mesmas e, por este motivo, as cerâmicas odontológicas podem ser divididas em dois grandes grupos, de acordo com a sensibilidade ao condicionamento com ácido hidrofluorídrico: às cerâmicas ácido-sensíveis e cerâmicas ácidorresistentes.

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Cerâmicas ácido-sensíveis

As cerâmicas chamadas ácido-sensíveis são aquelas cuja superfície sofre alterações estruturais quando submetida ao tratamento com ácido hidrofluorídrico. Fazem parte deste grupo as cerâmicas feldspáticas (VM7, VM9, VM11, VM13, Vitablocs Mark II, VITA Trilux/VITA, Duceram Plus, Duceram Kiss/Degudent, Super-Porcelain EX-3, Cerabien/Noritake), as leucíticas (Finesse All-Ceramic/Dentsply; IPS d.Sign, IPS Empress CAD, IPS Empress Esthetic/Ivoclar Vivadent; Cergogold/Dental-U), à base de dissilicato de lítio (IPS e.max/Ivoclar Vivadent), à base de silicato de lítio reforçada por zircônia (Vita Suprinity/Vita) e também a nova geração de cerâmicas híbridas (Vita Enamic/Vita).

São materiais que podem ser utilizados na confecção de facetas laminadas, inlays, onlays, coroas e PPF de até três elementos, de forma monolítica ou com infraestrutura metálica ou cerâmica. Apresentam alta translucidez e brilho, portanto, excelente capacidade de mimetizar os tecidos dentários.

Quando uma cerâmica ácido-sensível é condicionada com ácido hidrofluorídrico, ocorre a dissolução parcial da matriz vítrea superficial, criando microrretenções que permitem uma união micromecânica entre a cerâmica e o cimento resinoso. O agente de união silano é um material bifuncional que deve ser aplicado em sequência ao condicionamento ácido, por garantir uma união química entre a sílica da cerâmica e a matriz orgânica do cimento resinoso por meio de ligações siloxanas. A associação do condicionamento ácido com a silanização promove um aumento de molhabilidade da cerâmica ao cimento resinoso, melhorando o escoamento do cimento e garantindo uma união mais estável.

Apesar de estarem agrupadas como cerâmicas ácido-sensíveis, essas cerâmicas apresentam diferentes composições químicas, o que faz com que o tempo de ação do ácido hidrofluorídrico também varie. Em geral, o tempo de ação deste ácido varia entre 20 e 120 s, e a concentração pode ser de 5% ou 10%, de acordo com cada fabricante. Em todos os casos, são indicadas a silanização e a cimentação com cimento resinoso.

ARTIGO:

Adesão às cerâmicas odontológicas

AUTOR(ES):

Lilian Costa Anami1
Marina Amaral2
Renata Marques de Melo3

1Mestra e doutoranda em Odontologia Restauradora/Prótese Dental – ICT/Unesp.
2Doutora e pós-doutoranda em Odontologia Restauradora/Prótese Dental – ICT/Unesp.
3Pós-doutora em Odontologia Restauradora/ Prótese Dental e Pesquisadora – ICT/Unesp.